quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Minha Estante: Americanah - Chimamanda Ngozi e a questão racial

Hoje eu vim falar sobre um livro muito diferente de todos que já resenhei aqui no blog. O livro Americanah, escrito pela autora nigeriana Chimamanda Ngozi traz uma história cheia de verdades e contada de uma maneira peculiar.

Antes de resumir a história eu gostaria de perguntar quantos autores africanos você conhece? Quantos desses autores que você conhece são negros? E quantos desses autores negros são mulheres? Aposto que sua lista ficou bem menor do que a lista de autores americanos ou ingleses que já tenho lido. E por quê, se muitos livros produzidos por autores africanos já estão disponíveis em português? Eu também em fiz essa pergunta ao conhecer Chimamanda e ao decorrer de minha leitura de Americanah.


Chimamanda é uma mulher africana, proveniente da Nigéria que aos dezenove anos se mudou para os Estados Unidos, onde estudou ciência política, escrita criativa e estudos africanos. Tem ganhado bastante notoriedade no meio literário por conseguir por meio de suas obras, atrair os olhares de pessoas do mundo inteiro para o continente africano. História bem semelhante com a de Ifemelu, protagonista de Americanah. Embora a obra não seja uma biografia, podemos encontrar semelhanças entre autora e personagem.

A história se incia em Lagos (que até 1991 era a capital da Nigéria) no ano de 1990. A autora nos apresenta a história de dois jovens, Ifemelu e Obinze, que iniciam o namoro no final do ensino médio e continuam sua relação durante a faculdade. A Nigéria atravessava uma fase difícil, vivendo sob um governo militar e sucessivas greves em suas universidades. Com muitos amigos procurando alternativas em outros países, a protagonista resolve se mudar para os Estados Unidos, onde sua tia Uju mora e onde poderia realizar sua graduação de forma mais tranquila.

Ifemelu e Obinze prometem manter contato, mas a realidade na América é bem diferente do que a jovem esperava. Sua tia, que na Nigéria era uma médica respeitada como qualquer outra, tem de enfrentar provas e provas para provar seu conhecimento, além de lidar com diversos pacientes que não a respeitam por ser negra. Moram em um bairro em que a maior parte da população é negra e  assim Ifemelu vai descobrindo as barreiras invisíveis que separam bairros brancos e bairros negros.

Ifemelu ainda ficava espantada com a diferença que alguns minutos no trem faziam. Durante seu primeiro ano nos Estados Unidos, quando pegava o trem da New Jersey Transit até a Penn Station em Nova York e depois o metrô para visitar tia Uju em Flatlands, no Brooklyn, ficava impressionada ao ver como a maior parte das pessoas brancas e magras descia nas estações de Manhattan, e, conforme o metrô ia se aproximando do Brooklyn, só iam sobrando as negras e gordas.

Estranhando a cultura americana e sentindo falta de Obinze e de sua família, Ifem inicia seus estudos na universidade, onde convive com o preconceito racial e com o preconceito por ser africana. Em meio a discussões sobre questões raciais, estudos e perguntas ofensivas, a nigeriana vai percebendo a visão distorcida e preconceituosa que as pessoas tem sobre a África, além de se deparar com as dificuldades enfrentadas por imigrantes como ela.

Ifemelu sentiu um desejo súbito e desesperado de ser do país onde as pessoas davam dinheiro, e não do país onde elas recebiam, ser um daqueles que tinham posses e que, portanto, podiam ser iluminados pela graça de ter doado, estar entre aqueles que tinham dinheiro para gastar em piedade e empatia copiosas.

Precisando se manter, Ifem procura emprego em todos os locais que pode, mas encontra as maiores dificuldades possíveis. Seu inglês não era perfeito como pensava, ela não falava como americana. Também não agia como uma. E o que ela nunca havia parado para pensar antes: havia preconceito contra os próprios negros americanos e esse preconceito se intensificava quando se tratava de estrangeiros. Devastada com a nova realidade, Ifem entra em depressão e para de responder a Obinze, perdendo o contato.

Quinze anos depois, ela já está com seu visto de permanência americano e famosa por seu blog, que fala sobre negros americanos e negros não americanos. Com um tom direto e muitas vezes acusador, Ifemelu aponta o racismo existente na sociedade, que tenta fazer com que o negro se desfaça de suas características naturais, como o cabelo por exemplo. Também tenta mostrar ao mundo que a África é plural e que existem diferenças enormes dentro do continente, diferenças essas que são ignoradas e unidas sob o estigma da miséria por pessoas que não tentam compreendar essa pluralidade.

O livro alterna entre a narrativa da história de Ifem com a história de Obinze, que também fará algumas considerações sobre imigração, racismo e outras questões. Ifemelu voltará à Nigéria. Encontrará um país muito diferente do que um dia deixou. Encontrará condições totalmente opostas com as quais se acostumou.

Devo dizer que o grande ponto da história não é o romance. Americanah - expressão com a qual os nigerianos se referiam a africanos que voltavam dos Estados Unidos – é um livro sobre questões raciais e sociais. É um livro sobre os preconceitos existentes e como eles afetam a vida de uma pessoa. É um livro que discute história e sociologia o tempo inteiro. E é inclusive muito interessante como como a partir da visão dos protagonistas e de um romance aparentemente comum, também podemos conhecer um pouco sobre a história da Nigéria, costumes e visualizar a Lagos que vai sendo descrita.

Não era surpreendente que não houvesse um salão especializado em Princeton — os poucos negros que ela vira ali tinham a pele tão clara e o cabelo tão liso que era difícil imaginá-los usando tranças —, mas, enquanto esperava o trem na Princeton Junction, numa tarde incandescente de calor, Ifemelu se perguntou por que não havia um lugar ali onde pudesse fazer suas tranças.

Os personagens não são de forma alguma cativantes e acredito que isso tenha sido proposital da parte da autora. Eles sofrem com todas as questões apontadas no resumo que fiz do livro, mas erram o tempo inteiro, tem atitudes que podem parecer inaceitáveis do ponto de vista do leitor. Ifemelu é o oposto da mocinha cativante, tendo atitudes como tentar se sobressair perante africanas de outros países que estavam a menos tempo na América. O grande desafio de Chimamanda foi criar uma história cativante sem que os protagonistas o fossem. E ela conseguiu brilhantemente. Por que a história não é de Ifemelu e de Obinze, é de milhares e milhares de pessoas que enfrentam racismos e preconceitos todos os dias. Eles foram apenas instrumentos para que uma discussão fosse levantada, para que se gerasse uma reflexão. Não por empatia para com eles, mas por uma reflexão mais profunda do que isso. Não é um livro sobre romance, é sobre a sociedade.

Apesar de contar com 520 páginas, a obra é fluida e interessante, mantendo o interesse do leitor a cada página. Sem nenhuma dúvida, Chimamanda Ngozi merece os prêmios literários que conquistou, pois sem dúvida tem um enorme talento para tornar discussões sérias acessíveis a um maior número de pessoas e de uma forma tão agradável e criativa. Americanah é um livro indispensável para quem quer sair do lugar comum, para quem se disponibiliza a sair de sua zona de conforto e conhecer uma realidade diferente da mostrada nos livros ingleses ou americanos.

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9 comentários:

  1. Uau, que resenha incrível, e que livro maravilhoso!
    Posso contar nos dedos os escritores africanos que já ouvi falar: Mia Couto, Pepetela e Chimamanda. E isso diz muito sobre o que as editoras consideram mais "importante" pra gente quando se trata de literatura estrangeira.
    Conheci a Chimamanda com o livro "Sejamos todos feministas", e logo depois vi uma resenha de "Hibisco Roxo", e fiquei louca pra ler! Ainda não posso comentar muito sobre a obra dela, mas só pelo que li e ouvi falar, sei que Chimamanda tem um longo histórico de luta política e social, principalmente no que diz respeito a enfrentar o racismo.
    Fiquei com muita vontade de ler esse livro. Primeiro achei que fosse mesmo uma biografia ou livro de memórias dela, mas imagino que mesmo sendo ficção, é bastante autobiográfica.
    Adorei sua resenha! Nós blogueiros precisamos incentivar a leitura de livros como esse! Parabéns!

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  2. Eu li esse livro no ano passado e fiquei completamente apaixonada por ele. Ifemelu é uma personagem que me cativou muito. Recomendo Hibisco Roxo, também é maravilhoso. Até botei o nome da minha gatinha de Kambili por caus do livro. Adorei a sua resenha!

    Tatiana

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  3. Oiii Isabella, como vai?
    Que resenha mais incrível garota, confesso que fiquei bastante interessada em ler, é um assunto que até hoje é ainda tabu na nossa sociedade, dica super anotada.
    Beijinhos

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  4. Sou apaixonada por Chimamanda e quero ler tudo dela. Eu li apenas um e desde então fico esperando uma promoção para adquirir este e os outros. Adorei a resenha e como você colocou seu ponto de vista. Quero mais ainda.
    Beijos

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  5. Amei sua resenha, é realmente incrível a história desse livro e os temas que são abordados. Já consegui esse livro e mais 3 da autora, em breve estarei compartilhando a resenha no blog. Tão bom você compartilhar. Muito sucesso, bjooo

    http://blogaventuraliteraria.blogspot.com.br/

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  6. Olá, amei sua resenha, que maravilhoso você ter trazido esse livro, a literatura negra precisa ser mais exaltada, temos um visão terrivel do continente africano, ele sim tem muita pobreza mas também é um país lindo e cheio de cultura que devemos estudar mais antes de sair dando certas opniões equivocadas.
    adorei demais a premissa do livro e o que ele quer passar e com certeza irei ler, aposto que essas 500 páginas irão passar rapidinho

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  7. Incrível a resenha desse livro, faz refletir sobre certos aspectos no mundo literário que é a falta de autores negros, eu conheço alguns, mas quando parei para pensar realmente é bem pouco, esse livro despertou meu interesse vou anotar a dica. Bjs

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  8. Olá, não conhecia essa obra e fiquei empolgada com sua resenha. Já me interessei em conferir também.

    Abraços

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  9. Oi!!
    Eu fiquei aqui pensando sobre o que você perguntou e realmente não sei responder quantas autoras africanas eu li, acho até que não li nenhuma o.O, que vergonha.
    Tenho certeza de que quero ler esse livro, acho muito interessante ler sobre problemas raciais e sociais, fazem a gente ver melhor a realidade né.
    Livros assim sempre me fazer passar um tempo refletindo sobre essas questões.
    Amei a tua resenha e adorei a dica de leitura.
    Beijão!

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