segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Resenha: As Sufragistas

O filme as Sufragistas, retrata acontecimentos entre os primeiros 1913 e o início do ano de 1914, quando as sufragistas inglesas, em sua maioria pertencentes do Women’s Social and Political Union, WSPU, depois de 40 anos lutando de forma pacífica pelos direitos civis das mulheres e não sendo atendidas, passaram a adotar como estratégia a desobediência civil. Em resposta a militância feminina, a polícia respondia com repressão violenta, além de prisões arbitrárias e recusa de reconhecer as sufragistas como presas políticas. 1



Um dos principais métodos das sufragistas contra as prisões arbitrárias eram as greves de fome, combatidas com alimentação forçada, mostrado de forma realista no filme. Os jornais e revistas da época retratavam essas mulheres como histéricas, fanáticas e violentas, além de acusá-las de tentar tomar o lugar de seus maridos na sociedade.

O filme apresenta personagens importantíssimos para o movimento sufragista como Emmeline Pankhurs, a grande líder do movimento interpretada por Meryl Streep e Emily Davison, que representou um marco na luta sufragista, mas o foco principal está na personagem fictícia Maud Whatts, que apesar de fictícia, representou brilhantemente a vida das mulheres operárias inglesas. Maud representa a mulher trabalhadora inglesa no início do século: esposa e mãe, trabalha desde jovem em uma lavanderia, ganhando menos do que os homens, em péssimas condições de trabalho e acreditando que deve ser grata ao patrão, mesmo que este tenha abusado sexualmente dela desde que era menina.

Maud vive sua vida cotidiana até o dia em que se depara com uma confusão nas ruas, causada por um protesto sufragista. Entre essas mulheres está Violet Miller, colega de trabalho de Maud, que a convida para ouvir sua fala em favor do voto das mulheres. Um imprevisto ocorre e Maud precisa dar seu depoimento no lugar de Violet, percebendo por meio de sua fala o quão era desigual a situação entre homens e mulheres. Após um protesto, a protagonista é presa e sofre na cadeia, mesmo que negue ser uma sufragista, título que ainda lhe assusta por ter uma conotação negativa na população.



Ouvindo o discurso de Emmeline Pankhurs, Maud é encontrada pela polícia e presa novamente, o que acarreta em sua expulsão de casa por seu marido Sony, que é recriminado por outros por não exercer o “devido controle” sobre sua mulher. Expulsa de casa e afastada de seu filho, sobre quem segundo a lei, não tinha nenhum direito, Maud percebe que afinal ela é sim uma sufragista e não tendo mais nada a perder, ela percebe que afinal, tudo o que tinha era uma ilusão, visto que para aquela sociedade, sua voz era insignificante. A partir do momento em que percebe que a lei não foi feita para ela, a protagonista resolve que não tem nenhuma obrigação de obedecê-la.

Essa reviravolta na vida da protagonista é um dos muitos momentos em que o filme aborda a questão da desigualdade econômica entre as militantes. Maud, pertencente a uma camada baixa da sociedade, sofre consequências diferentes das sofridas por outras mulheres, sendo expulsa de casa e perdendo sua única fonte de renda ao se defender do assédio do patrão. Outras camadas da sociedade são representadas por meio de Edith Elly, uma farmacêutica que tem uma certa medida de independência financeira e conta com o apoio do marido, Alice Houghton, que era esposa de um político que se apesar de a apoiar em alguns momentos, exigia sua submissão em outros e Emmeline Pankhurst, que por ter uma condição socioeconômica superior à das outras personagens, não sofria consequências tão graves por seu envolvimento com o sufragismo.

A mudança de Maud é lenta e gradual, a medida em que o conhecimento dela sobre os objetivos do movimento sufragista e das próprias condições em que ela e outras mulheres viviam ia surgindo. O fato de que as mulheres se ajudavam dentro do movimento é apresentado quando Maud precisa da ajuda de suas companheiras após ser expulsa de casa.



Embora o objetivo do filme tenha sido claramente mostrar o desenvolvimento de uma consciência crítica por parte de uma mulher comum como Maud para representar todas as mulheres trabalhadoras presentes no movimento, acredito que a figura de Emily Davison, que seria a mais conhecida mártir sufragista, aquela que deu destaque mundial as reivindicações das mulheres inglesas, deveria ter sido mais explorada.


Houve diversas críticas ao fato de o filme não mostrar nenhuma mulher negra no movimento sufragista, mas a diretora Sarah Gravon argumenta que

Os registros do censo de início de 1900 não mostravam a diversidade étnica, mas, a julgar pelos nomes, evidências fotográficas e relatos escritos, parece que apenas duas mulheres de cor se juntaram ao movimento do Reino Unido” 2
Gravon ainda argumenta que uma dessas mulheres de cor, a indiana Sophia, pertencia a aristocracia, e visto que o objetivo do filme era mostrar a partir de Maud Whatss o sufragismo do ponto de vista dos trabalhadores, isso não faria sentido.3 Apesar de esta explicação ser bastante convincente, o fato de não aparecerem nem mesmo figurantes negros ou indianos ainda permanece sem uma explicação.

Apesar das críticas, acima, o filme cumpre sua proposta de em meio a tantos filmes que representam vitórias masculinas, representar um importante movimento político feminino. E o fato de a protagonista ser uma mulher trabalhadora e sem grande conhecimento intelectual é um diferencial que muito me agradou. Emmeline Pankhurst foi importante, assim como Emily Davison, (embora a segunda merecesse um destaque no filme, o que faria até mesmo o final ser mais significativo) mas a ideia de mostrar por meio de uma personagem todo um conjunto de mulheres, foi simplesmente genial e fez toda a diferença para que as mulheres atuais possam se identificar com o movimento, fazendo uma ponte entre sufragismo e feminismo. 4

1JILES, Elena Cafarenna. A Manera de Exordio In: Un Capítulo en la Historia del Feminismo – Las Sufragistas Inglesas. Ediciones del Mench, 1952. p 9-19.
2FINCO, Nina. O Movimento Sufragista - ou parte dele. Disponível em <http://epoca.globo.com/vida/noticia/2015/12/o-movimento-sufragista-ou-parte-dele.html> Acesso em: 31.jul.2016
3Ibidem
4Feminismo como o conceito de Elena Cafarenna, que tem o feminismo como um fenômeno social que tem seus fundamentos na sociedade, emergindo dos acontecimentos. JILES, Elena Cafarenna. A Manera de Exordio In: Un Capítulo en la Historia del Feminismo – Las Sufragistas Inglesas.Ediciones del Mench, 1952. p 9

28 comentários:

  1. eu morro de vontade de ver esse filme mas ainda nao tive chance. :(
    Apesar de uma coisa aqui e ali que não me agradaram tbm,acredito que é um bom filme... gostei das notas que vc postou ao fim do texto...
    bjs...

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  2. Oiii.
    Ainda essa semana estavamos comentando sobre esse filme no grupo do facebook, tenho curiosidade de assisti-lo, mas uma amiga nossa que é historiadora disse que eles não focaram muito nessa questão história, como vc disse tambem não falaram das mulheres negras. Mas mesmo assim tenho curiosidade para assistir.
    Adorei o post, parabéns
    Bjs Mary.
    http://leiturasdamary.blogspot.com.br/

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  3. Hey, Isabella!

    Já vi muita gente falando bem desse filme e tenho vontade de ver.
    Quero assistir assim que tiver a oportunidade.

    Beijos!

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  4. Oiii, como vai?
    Eu tenho tanta vontade de assistir esse filme e acabo sempre esquecendo, não sei como consigo isso, adorei ter tido a oportunidade de saber a sua opinião e com toda certeza quero assistir.
    Beijinhos

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  5. Olá!
    Sabe que só tinha ouvido falar desse filme por alto?!
    Parece ser um ótimo filme, confesso que não sei muita coisa sobre esse movimento político e acredito que esse filme seja uma boa forma de começar.
    Gostei das notas que você postou.
    Vou assistir quando puder!
    Beijos!

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  6. Oi, Isabella!

    Eu acho esse um dos melhores filmes que já vi na vida. Achei um elenco de primeira, retrata um movimento político muito importante para as mulheres, é excelente!
    Beijo.
    Ana Karina

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  7. Olá
    Poxa! Gostei. Vou procurar para assistir, não conhecia.
    Bjs

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  8. Olá, não conhecia o filme, mas gostei bastante e vou procurar para assistir.
    Parabéns pelo post, bem legal as notas acrescentadas ao final, bjs

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  9. Não conhecia o filme.
    Mas gostei muito do que você pontuou sobre ele e fiquei interessada em ver.
    Parece ser uma história interessante.

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  10. Não conhecia ainda este filme, mas parece uma história bastante interessante, vou procurar para assistir. Gostei.

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  11. Esse filme é um Vraa na cara da sociedade. Não só mostra a ideia real do movimento feminista como também é a base para estudos de gênero e identidade no qual eu trabalho. Virei a sua fã, você delineou mt bem as cenas do filme, parabéns.

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  12. Olá!!
    Esta na minha lista, mas ainda nao consegui assistir, Isabella
    Adorei o post
    Bjs

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  13. Que post maravilhoso! Gostei demais de conhecer esse filme por aqui! Assim que tiver um tempinho irei assistir! Muito obrigada pela dica incrivel.
    Beijos

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  14. Oie, tudo bem? Seu post ficou excelente! Ainda não assisti ao filme, quero muito ver, fiquei mais curiosa agora.

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  15. Ooi
    Esse filme parece ser ótimooo! Morro de vontade de ver ele, sua resenha só aumento minha vontade haha E esse elenco maravilhosoooo!
    Dica anotadissima!

    Beijoos!
    http://estantemineira.blogspot.com.br/

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  16. Olá, tudo bem?
    Esse filme está na minha lista há muito tempo. Além de ter uma premissa maravilhosa, o elenco está de matar, mulheres incríveis. Assim que eu assistir venho te dizer o que achei.
    Beijos <3

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  17. Olá, não conhecia esse filme, mas como eu adoro história ele com certeza será uma ótima pedida, não vejo a hora de assisti-lo, ainda mais com esse elenco maravilhoso, assistiria qualquer coisa com a Maryl

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  18. Queri muito ter assistido esse filme na época em que saiu no cinema. Agora estou esperando ele ser liberado no netflix ou eu entrar de férias, o que acontecer primeiro rs... Adoro filmes e livros históricos, nos fazem aprender de um jeito mais informal. Mulheres que fizeram história e merecem ser lembradas! ;)

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  19. Lendo seu post agora me lembrei que eu esqueci totalmente de assistir esse filme e olha que eu queria muito ver quando vi o trailer.
    Vou tirar um tempo pra ver ele, pois sempre quero muito aprender sobre a luta das mulheres.

    beijos

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  20. Oiii
    Não tive oportunidade de assistir a esse filme ainda. Mas ele está na minha lista. Pena que ficou um pouco raso algund aspectos. Mas esse tipo de filme sempre tem o que ensinar.
    Bjus

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  21. Vi o trailer desse filme esses dias e fiquei louco pra ver. Pelo elenco, pela trama, ambientação, tudo! Depois dessa sua resenha vou correndo ver um jeito de assistir!
    Abraço;

    http://estantelivrainos.blogspot.com

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  22. Eu amei esse filme ♥ O vi na faculdade, num cine-debate, e foi maravilhoso. Discutimos, inclusive, a questão da ausência do feminismo negro, mas de fato não havia muitas mulheres negras livres, na época, para juntarem-se a esse movimento, infelizmente. :x

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  23. Oie
    nossa, que interessante, não conhecia o filme mas com certeza fiquei curiosa, adorei a resenha sobre

    Beijos
    http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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  24. Olá tudo bem?
    Gostei muito da resenha, eu tenho esse filme e a curiosidade só aumenta para assisti-lo. Ao meu ver é um filme que tem muitas mensagens para passar e uma história incrível, já recebi muitas recomendações e verei em breve.

    Abraços, Carlos.

    http://triplicenerd.blogspot.com.br/
    http://blogchuvadeletras.blogspot.com.br/

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  25. Oi, tudo bem?

    Ainda não tive oportunidade de assistir a este filme. No coletivo feminista do qual faço parte já houve alguns debates sobre ele e, inclusive, na minha faculdade, mas não pude ir. Acredito da historicidade dele e na importância, mas creio que ele peque em alguns pontos (como, por exemplo, representar somente as mulheres brancas). Lembro até que, na época de lançamento, as atrizes ficaram meio mal na fita por usarem camisetas dizendo que preferiam ser rebeldes a escravas, sendo que... Todas são brancas. Ops! (um texto muito bom sobre é esse aqui: http://collantsemdecote.com.br/o-caso-das-camisas-muito-erradas-que-o-elenco-de-suffragettes-usou-please-stahp/). Acho bom que o cinema esteja sendo mais "diverso", mas ainda precisa entender muito mais sobre representatividade...

    Love, Nina.
    http://ninaeuma.blogspot.com/

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  26. oi, tudo bem?
    quero muito ver esse filme. Acho que retrata um período importante, uma conquista importante para as mulheres. Infelizmente, ainda hoje, mais de 100 anos depois, ainda há preconceito de gênero. Então é sempre legal ver um pouco da luta feminina.
    beijos
    http://meumundinhoficticio.blogspot.com.br

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  27. EU AMEI ESSE FILME, mesmo com o final triste eu adorei ele, é incrivel o quanto evoluimos em nossos direitos

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  28. Oh my God! Eu amei a resenha, tinha visto algumas coisas desse filme na época do Oscar, mas não tão profundamente. Agora preciso assistir pra sentir toda essa emoção que se aflorou durante a leitura desta resenha.
    Caçando o filme na net em 3,2,1...
    Ni
    Cia do Leitor

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