segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Minha Estante: O Guardião de Memórias e sua Mensagem sobre as Escolhas

Em O Guardião de Memórias, a autora Kim Edwards apresenta uma história que aborda as relações humanas, os sentimentos ocultos de cada um e principalmente como uma única escolha pode mudar várias vidas.
 
A história se inicia em 1064, quando o médico ortopedista David Henry e sua esposa, a jovem Norah, esperam com ansiedade e grande expectativa a chegada do primeiro filho. Norah começa a sentir as dores do parto semanas antes do previsto, mas, por conta de uma tempestade de neve totalmente inesperada, David precisa realizar o parto da esposa com a ajuda da enfermeira Caroline Gill.


 

Durante o parto, Norah oscila entre consciência e sono profundo, por conta da cirurgia. Nasce um menino, perfeito de saúde. Mas quando David pensa que o parto terminou, nasce também uma menina, mas ao contrário de seu irmão, ela tinha problemas de saúde: nasceu com síndrome de down.  Abalado com a constatação e temendo que sua esposa e seu filho sofressem com uma morte precoce, David pede a Caroline Gill que leve a criança para uma instituição enquanto Norah estava sob efeito da anestesia.

Os olhos azuis eram nublados e o cabelo negro feito piche, porém ele mal notou esses detalhes. O que viu foram os traços inconfundíveis, os olhos repuxados como que numa risada, a prega epicântica entre as pálpebras, o nariz achatado. Um caso clássico, lembrou­se de um professor dizendo, anos antes, ao examinarem uma criança similar. Mongolóide. Sabe o que significa isso? E ele, compenetrado, recitara os sintomas que havia decorado de um livro: tônus muscular flácido, retardo no crescimento e no desenvolvimento mental, possíveis complicações cardíacas, morte prematura. O professor assentira com a cabeça, pondo o estetoscópio no peito liso e nu do bebê. Pobre criança. Não há nada que eles possam fazer, exceto procurar mantê­-la limpa. Deviam poupar­-se e mandá-­la para uma instituição

Caroline, que sempre admirara David e que nutria uma paixão pelo médico, fica chocada e tenta convencê-lo do contrário, mas sem sucesso. Quando chega a instituição, percebe que as condições são péssimas e sem ter coragem de de abandonar a pequena bebê naquele lugar, a leva para sua casa, acreditando que David mudaria de ideia, que bastaria apenas uns dias para que repensasse sua decisão.  

(...) Caroline se comovera com a dor e a confusão estampadas no rosto dele ao examinar a filha, com a maneira lenta e entorpecida como ele passara a se mover daquele momento em diante, O Dr. Henry não tardaria a cair em si, disse a si mesma. Estava em choque, e quem poderia censurá­lo?
Quando uma semana depois, Caroline lê no jornal uma nota de falecimento em nome de Phoebe Henry – o nome que Norah queria para a filha – a enfermeira percebe que David mentira a Norah sobre o que acontecera de fato com sua filha. Percebendo que a menina fora rejeitada por seu pai, Caroline, que até então tinha uma vida triste e solitária, larga tudo para trás e se muda de cidade, levando a menina que criaria como sua filha. 

A história vai se alternando entre capítulos que mostram a vida de Caroline e Phoebe e a família Henry. Os sentimentos de Norah – abalada pela perda da filha – e os de David – afundado em uma grande dúvida se havia feito ou não o certo para sua família – são pontos altos da narrativa. A autora cria um passado dramático para David, trazendo assim uma espécie de justificativa para sua atitude tão questionável. O segredo de David transforma drasticamente o que poderia ter sido sua vida, mas muda principalmente quem ele era realmente.

A escrita de Kim Edwars é sensível, mostrando muito dos sentimentos dos personagens, que também foram muito bem construídos. Caroline Gill sem dúvidas é um dos personagens mais cativantes. De uma mulher solitária e fraca, ela passa a ser uma mulher com muito amor a oferecer, tanto a Phoebe quando para outros que atravessam seu caminho. Passa a lutar pelo direito à educação para as crianças com síndrome de down, que naquela época, não tinham direito a estudar numa escola pública. O amor por Phoebe a torna uma pessoa melhor e mais feliz, coisa que nunca teria acontecido se ela não tivesse abandonado sua vida anterior.

O sofrimento de Norah pela perda do bebê e pelo afastamento de David é mostrado durante todo o livro, a autora enfatizando o quanto aquela perda era sofrida para a mãe que nunca chegou a conhecer sua filha. Porém, apesar da tentativa de Kim de fazer Norah cativar o leitor, ela é uma das personagens que menos desperta compaixão. Até mesmo David com seus sentimentos de culpa, seu passado trágico e sofrendo com o distanciamento da esposa, consegue cativar mais o leitor. Aliás, o nome O Guardador de Memórias provavelmente vem das memórias do passado de David e de suas tentativas de guardar o presente fotografando compulsivamente.

Também não tinha previsto sua própria tristeza crescente, entremeada com os fios escuros de seu passado. Quando imaginava a filha de que abrira mão, era o rosto de sua irmã que ele via, com os cabelos pálidos e o sorriso sério. 
Os filhos dos Henry, Paul e Phoebe são bem cativantes, principalmente Phoebe, que com a ajuda de Caroline, vai se desenvolvendo e quebrando todas as afirmações que os médicos da época faziam para crianças que nasciam com a síndrome. 

Como o livro se inicia em 1964, o linguajar não é politicamente correto. Na verdade, é bem preconceituoso e acredito que tenha sido a intenção da autora mostrar exatamente isso – o estigma que marcava essas pessoas – quando alguns personagens se referiam à pessoas portadoras de Síndrome de Down como retardados, mongolóides ou incapazes. A autora teve o grande acerto de mostrar a luta dos pais dessas crianças e adolescentes para que elas fossem incluídas na sociedade como qualquer outra criança seria.
A história, embora com ótimo enredo, em alguns momentos se tornava cansativa, com muitas delongas onde não havia necessidade e o final, apesar de ter sido bem coerente, sem dúvidas merecia ter sido mais explorado. Porém, mesmos estes apontamentos não tiram o brilho de uma obra cativante e bem escrita, que aborda um tema sensível e até mesmo difícil de ser abordado. A questão de como as escolhas individuais podem afetar inúmeras pessoas provoca a reflexão do leitor, fazendo-o adentrar no universo do livro. Sem dúvidas, O Guardião de Memórias, publicado pela editora Arqueiro, é uma excelente leitura para quem gosta de histórias que transbordam sentimentos de uma maneira bem original.

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19 comentários:

  1. Olá!
    Achei essa uma leitura bem intensa. Podemos ver claramente o preconceito da época por crianças com down e vemos também que isso se estende até hoje. Imagino a tristeza da mãe ao pensar que a filha morreu, e fiquei muito curiosa com os segredos do pai.
    Beijos.
    https://arsenaldeideiasblog.wordpress.com/

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  2. Oiiii, como vai?
    Gente eu morro de vontade de ler esse livro que se nem imagina, teno uma amiga que é fanática por ele e fica me perturbando até eu ler, então dica super anotada HAUAHAUAHUA
    Beijinhos

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  3. Olá!
    Esse livro está na minha lista de leitura faz tempo, mas, ainda não consegui ler rs
    Gostei muito da sua resenha, e gosto demais de livros que transbordam sentimentos rs
    Beijocas.

    www.meumundosecreto.com.br

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  4. Olá!
    Ainda que este seja um livro que aborda uma temática bastante importante e sensível, não é uma obra que me chama a atenção. Gosto de livros mais divertidos e menos tocantes.
    Ainda assim, gostei de saber que a obra possui um ótimo enredo, sendo cativante e bem escrita. Fico feliz que tenha gostado da leitura!
    Beijos!

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  5. Olá,
    Tenho o livro, mas ainda não iniciei a leitura.
    A premissa é bem interessante e muito envolvente. Ainda não li nenhuma obra que tivesse personagens com síndrome de down e acho que esse iria me comover bastante.

    https://leitoradescontrolada.blogspot.com.br/

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  6. já tinha ouvido falar desse livro mas nunca me atentei ao enredo...sinto que deveria ter dado uma chance de leitura pra ele, quando podia... mas se eu ttiver chance, lerei... gosto de histórias com essa temática, apesar das falhas apontadas por vocÊ na resenha...
    bjs...

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  7. Uma leitura cheia de sentimentos assim cai sempre bem né?
    Parabéns pela resenha!

    http://www.papelpalavracoracao.com.br/

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  8. Oi Isa!
    Sempre vejo esse livro para vender, mas nunca tinha lido a sinopse nem nada... gostei muito do tema abordado e lembrei de várias pessoas conhecidas minhas que também vão se interessar. Gosto dessas dúvidas existenciais que ficam ecoando dentro da gente mesmo depois do fim do livro, valeu pela dica e pela ótima resenha! Bjokas

    http://thehouseofstorie.blogspot.com.br/

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  9. Não conhecia o livro ainda, na verdade tinha ouvido falar vagamente, mas com sua resenha pude perceber o quanto preciso ler ele. É o tipo de enredo que me encanta muito e traz a tona tudo que precisamos aprender ainda.

    www.saotnatas.blogspot.com

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  10. Ooi!
    Acho que já vi esse livro, não me lembro onde, mas, nem sabia do que se tratava. haha
    O livro parece mesmo ser muito bom, parece bem diferente do que leio, mas fiquei interessada. Dica supeeer anotada.

    Beijoos!
    http://estantemineira.blogspot.com.br/

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  11. Eu fui ler este livro a algum tempo atrás mas não fluiu tanto para mim a leitura. Confesso que ainda nem terminei. E acho que teria que começar novamente do início para entender a história de novo. Mas sua resenha esta muito boa.

    Beijos.

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  12. Me deu uma tristeza só de ler a sinopse. Bah... Apesar do tema me interessar, não sei se leria esse livro porque é BEM pesado. Mas parece ser muito bom.

    ;*

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  13. Que resenha excelente! Fiquei bem interessada no livro pela temática que ele aborda e a forma sensível que parece ter sido tratada, mas ao mesmo tempo, sem florear ou romantizar a realidade.
    Vou anotar o título do livro para comprar depois e conhecer a história, acho que ele é do tipo que a história é enriquecedora!
    xoxo

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  14. Oiee,
    O livro parece ser bem denso, né? e cheio de mensagens marcantes.
    Mas infelizmente não é o tipo de leitura que me prenderia no momento.
    Ainda assim a sua resenha está excelente.
    Beijos

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  15. Olá, tudo bem?
    Mil vezes já pensei em ler esse livro, mas sempre percebo que é drama demais pra mim e que eu demoraria séculos para terminar a leitura. Então, acho que ainda não é hora de O Guardião de Memórias pra mim hehe
    Beijos <3

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  16. É estranho ver que no passado as coisas eram difíceis e depois de anos e anos ainda continuam ruins. Eu não leria esse livro no momento, é muito sofrimento e eu tenho procurado só coisas boas, tão cheio de desgraçada no mundo real já .-. Mas, apesar disso achei muito interessante os temas tratados e forma como foram trabalhados. Obrigada pela resenha
    Angel Sakura
    www.euinsisto.com.br

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  17. Olá!
    Considero o livro com uma história bem forte, pois se nos tempos de hoje existe um preconceito vergonhoso, imagine nessa época que as pessoas não tinha tanta mente aberta e inteligencia como nos tempos de agora.

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  18. Olá!


    Vejo claramente o preconceito presente. Nos tempos de agora, existe uma certa ''nao aceitação'' por muitas coisas, e olha que já estamos em um século bem avançado. Imagine nessa época, a qual tudo era mas complicado. É um livro bastante intenso, tem uma história bem elaborada. Pretendo ler ele!

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