terça-feira, 21 de junho de 2016

Minha Estante: Sete Mitos da Conquista Espanhola, Matthew Restall


UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE - UFF

DISCIPLINA: HISTÓRIA DA AMÉRICA 

ISABELLA CABRAL MARQUES


Uma Nova Perspectiva da América Espanhola a partir da Análise de Matthew Restall

RESTALL, Matthew. Sete mitos da conquista espanhola. Tradução de Cristiana de Assis Serra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

Em seu livro Os Sete Mitos da Conquista Espanhola, o pesquisador e professor na Universidade da Pensilvânia Matthew Restall procura descontruir sete mitos que por muito tempo foram tidos como verdades a respeito da Conquista Espanhola. O autor, que segue a corrente da etnohistoria trabalha com cartas, crônicas, pinturas e outros tanto do período colonial quanti da historiografia moderna e analisa-as com o apoio da antropologia e história da arte. 1
No primeiro capítulo, Um punhado de aventureiros – O mito homens excepcionais aborda o mito de que um dos acontecimentos mais importantes da história, a Conquista Espanhola, foi possibilitada somente graças a excepcionalidade de alguns poucos homens, que liderando um pequeno número de aventureiros, ou seja, homens comuns, conseguiram conquistar impérios grandes e poderosos como eram os impérios inca e asteca. Os principais espanhóis tidos por muitos séculos como excepcionais foram Colombo, Cortés e Pizarro, sendo o primeiro o que descobriu a América para os europeus, e os outros dois líderes das primeiras expedições colonizadoras.
O autor argumenta que o mito dos grandes homens acaba por ignorar os papéis desempenhados por outros como os africanos, os americanos nativos, os próprios espanhóis que também acompanharam as expedições e o contexto. Restall disserta sobre como Colombo na época da conquista foi posto como um personagem secundário em razão de problemas que teve com a Coroa e pelo fato de a descoberta da América ter ocorrido por um erro em sua concepção geográfica, o que fez de Hernán Cortés o principal símbolo tanto do descobrimento quanto da conquista. O pesquisador afirma que o interesse popular e acadêmico iniciaram-se com o tricentenário da Descoberta da América e foram historiadores americanos como Washington Irving que estimularam o interesse pela imagem de Colombo, interesse que foi aumentando e que no quadringentésimo aniversário da primeira viagem do mesmo culminou em celebrações tanto em Madrid quanto em Chicago. A partir desse período, a imagem de Colombo foi sendo inserida no imaginário popular
Já em relação ao mito da excepcionalidade de Cortés e Pizarro, Restall afirma que as probanzas ou provas de mérito são as principais responsáveis. Além de informar ao rei a respeito do que se passava nas terras americanas, as probanzas também tinham o objetivo de solicitar recompensas, o que fazia com que os autores destes relatórios exaltassem seus atos e omitissem ou minimizassem os "bons" atos alheios. As probanzas tingam objetivo de explicar a Conquista como fruto de sacrifícios de indivíduos tidos como heroicos. As cartas ou a série de probanzas de Cortés ao rei foram publicados logo após chegarem a Espanha e foram publicadas em cinco idiomas até que a coroa decidiu banir essas publicações para evitar o culto ao conquistador.Esse culto acabou por ser reforçado por outras publicações como a habiografia de Gómara e até mesmo pelo relato de Bernal Díaz, que apesar de tentar reparar os erros que acreditava terem sido cometidos no relato de Gómara, ainda assim mostrou Cortés como um homem acima dos demais.
O historiador também desmistifica a originalidade atribuída aos conquistadores espanhóis como Cortés e Pizarro, afirmando que muitos dos procedimentos utilizados por eles como a adoção de intérpretes, o uso das demonstrações violência como forma de intimidação, a aliança com povos nativos, capturas de governantes indígenas e outros já eram utilizados por outros povos peninsulares e até pelos próprios nativos durante a expansão de seus impérios. Sendo assim, o autor confirma que a Conquista pode ser explicada por uma série de fatores, mas não por uma excepcionalidade de alguns poucos espanhóis, mito construído baseado em relatos dos mesmos, de religiosos como os franciscanos que precisavam do apoio de Cortés para entrar no México e da imagem que foi se adentrando no imaginário popular.
Já no capítulo dois, Nem remunerados, nem forçados – O mito do exército do rei Matthew Restall procura descontruir o mito de que todos os colonizadores eram soldados ou parte de um exército do rei, mito muitas vezes propagado por ilustrações, livros e filmes como 1492: A conquista do Paraíso. Restall utiliza de vários relatos para descontruir o mito anteriormente apresentado, como o relato de Francisco Jerez, testemunha ocular do encontro entre Pizarro e Atahuallpa, que culminou no massacre dos índios. Jerez enfatiza nesse relato que os espanhóis não eram de forma nenhuma um exército. Outras narrativas confirmaram essa afirmação, inclusive os relatos de Cortés, que em suas cartas ao rei, revela que seus homens não passam de um bando diversificado.
Segundo Matthew Restall, essa imagem de que todos os colonizadores eram soldados está ligada ao fato de que estamos habituados a ver atividades armadas ligadas a forças nacionais, mas não só esse foi o motivo da criação deste mito, mas também é fruto das transformações sofridas pelas forças armadas espanholas. A adoção do termo soldado começou a ser mais utilizada no final do século XVI, relacionadas as mudanças na forma de guerrear. Os espanhóis foram os primeiros na criação do que se chama atualmente de revolução militar. Com essa revolução militar, muitos associaram os primeiros invasores hispânicos a soldados e guerreiros, o que não poderia ser verdade, visto que nesse período, a revolução militar ainda engatinhava e os exércitos profissionais ligados a um Estado só foram criados no século XVIII. Além disso, no século XVI a Espanha não tinha condições financeiras de enviar tropas e armamentos para a América. Ou seja, a revolução militar alterou a forma como os espanhóis mais tarde veriam os conquistadores, sendo seguidos por historiadores modernos.
Além disso, os padrões bélicos europeus seriam inúteis nas Américas, sendo preferíveis as táticas de demonstração de violência e agir traiçoeiramente com os governantes locais. Os conquistadores adquiriam habilidades não por meio de um treinamento formal como se imagina em relação aos soldados, mas das situações práticas que se deparavam nas Américas.
Restall, ao analisar documentos e censos com informações sobre os conquistadores constatou que a maior parte era formada pelos mais variados tipos de artesãos e comerciantes que iam para às Américas em busca de riqueza e status. O autor cita James Lackhart (inserir nota "Um historiador norte-americano especializado na América Latina Colonial) para reafirmar que o interesse desses espanhóis era a obtenção de encomiendas ou concessão de mão de obra nativa a quem podiam tributar em forma de bens ou trabalho. Essas concessões elevavam o status e proporcionavam um alto padrão de vida.
Financiavam as próprias campanhas de expedição e recebiam proporcionalmente ao investimento realizado. Muitos se filiavam a redes de patronagem, inclusive o próprio Hernán Cortés, que teve Diego Velázquez como patrono por um tempo. Uma carta analisada pelos historiadores enviada por Gaspar de Marquina a seu pai, confirma a escrita de Jerez de que os conquistadores não eram remunerados, nem forçados. Marquina deixa claro em sua carta que não é um soldado profissional e que está nas Américas por livre e espontânea vontade atrás de oportunidades, ligando-se a patronos importantes.
O autor afirma que os conquistadores tinham idades, formações e ofícios variados, o que se contrapõe a ideia do típico conquistador espanhol: soldado, branco e letrado.
No terceiro capítulo, Guerreiros invisíveis – O mito do conquistador branco o autor utiliza de vários argumentos e relatos das fontes para descontruir o mito de que os espanhóis sem nenhuma ajuda derrotaram um número muito superior de nativos. O autor afirma que não há dúvidas de que nas batalhas, o número dos aliados nativos ou de africanos livres ou não era muito maior do que o número de espanhóis. Porém, em muitos relatos, os espanhóis tentaram estabelecer a ideia já apresentada no capítulo um de que venceram com um punhado de aventureiros. O frade italiano Ilarione da Bergamo em seus escritos explica a conquista mesmo com a desvantagem numérica dos espanhóis pelo fato de que tinham superioridade de armamentos, pelo fato de que os índios em sua concepção eram miseráveis e pela providência divina. Restall afirma que um uma análise minuciosa das diversas fontes pode-se encontrar uma séria de alusões as participações de nativos e africanos. O autor exemplifica utilizando uma carta de Alvarado a Cortés que continha a informação de que sua força era composta por 250 espanhóis e cerca de quinhentos ou seiscentos indígenas aliados. Por exemplo, para conquistar Tenochitlán os espanhóis contaram com a ajuda dos tlaxcaltecas e dos huejotizincanos. O autor reconhece a astúcia dos espanhóis ao detectarem e tirarem proveito das rivalidades e divisões nativas, mas que tanto tlaxcaltecas quanto huejotizincanos tinha interesse em se aliar aos conquistadores para promover seus interesses e combater adversários.
Também era comum o deslocamento dos indígenas para outras áreas de conquista dos espanhóis. Os huejotzincanos por exemplo seguiram lutando com os espanhóis a medida que a conquista se estendia por outras áreas. Os nativos geralmente eram voluntários, mas os indígenas que não pagavam o tributo ou não agenciavam mão de obra para os senhores acabavam por ser escravizados, o que foi proibido um tempo depois pela Coroa espanhola.
Os povos indígenas apareceram durante todo o processo de conquista ao lado dos espanhóis e eram mais numerosos que os escravos africanos porque os mesmos eram muito caros, comprados de comerciantes transatlânticos. Mas o fato de estarem me menor número que os nativos, não diminui sua importância na conquista. Muitos conseguiram sua liberdade e/ou outros privilégios lutando ao lado dos espanhóis, ainda que as fontes escritas pelos espanhóis não apresentem detalhes específicos sobre isso. O autor apresenta o exemplo de Julian Valente, escravo do espanhol Alonso Valiente e que morava na cidade de Puebla. Em 1533, Julian Valiente convenceu seu proprietário a deixá-lo partir em busca de oportunidades como conquistador, desde que mantivesse um registro de lucros e o trouxesse de volta para o dono. Julian não voltou e chegou a se tornar capitão, cavaleiro, sócio oficial da tropa de Juan de Valvidia e proprietário de uma encomienta. Assim como Julian Valiente, muitos outros negros trilharam caminhos parecidos.
Assim, o autor consegue comprovar que a América não foi conquistada pelo colonizador branco, mas sim por um conjunto formado por poucos espanhóis com seus muitos aliados nativos e africanos, sem os quais a conquista provavelmente não teria êxito.
Em Sob o domínio do rei – O mito da conclusão o autor aborda o mito da conquista rápida e completa de todo um território que tinha ouro e prata em abundância. O autor argumenta que até mesmo o rótulo "Conquista" dá a entender que foi um processo inevitável e simples. Os anos que sucederam esses acontecimentos passaram a ser vistos como marcos de transição entre a barbárie e civilização. Os conquistadores costumavam relatar suas atividades de conquistas e pacificações como algo já realizado. Faziam isso por dois motivos específicos: para conseguir recompensas por meio do sistema de patronagem e para justificação imperial, ou seja, os conquistadores precisavam convencer o monarca de que a região era interessante economicamente, que dispunha de muitas riquezas (principalmente prata e ouro) e mão de obra para explorá-las. Quando a versão da conquista não era crível, utilizavam-se argumentos de submissão voluntária dos nativos, como dizia uma carta de Cortés para o rei em 1529. Cortés afirmou nessa carta que os nativos quando ficaram sabendo da "imensa bondade" do rei espanhol decidiram se tornar seus vassalos, já que não suportavam tirania de seu líder.
A partir de 1490 foi disseminada uma ideologia que afirmava que tanto o descobrimento quando a conquista não eram apenas empreitadas de nobres ou comerciantes em busca de lucro, mas um dever de todos os fiéis, que deviam ter como objetivo levar o criatianismo até as populações indígenas.
Rastell prossegue dizendo que embora a monarquia não enviasse e nem financiasse os conquistadores para a América, ainda assim exercia um controle sobre as descobertas e conquistas, como por exemplo, a concessão de licenças ou títulos. Por esses motivos, os conquistadores em suas cartas e relatos fizeram parecer que a conquista foi muito mais rápida e fácil do que realmente foi. O autor mostra com uma série de exemplos que a conquista da América espanhola em sua totalidade, jamais foi concluída. O estado inca independente por exemplo, existiu até que Túpac Amaru fosse assassinado em 1572. As nações maias iucatanas existiram até aproximadamente 1808, muito tempo depois de a conquista já ter sido considerada finalizada.
A conquista de territórios periféricos durou em alguns casos muitos anos devido a resistência dos povos nativos. Muitos povos nômades eram totalmente contrários a construção de colônias e resistiram o máximo que puderam. A pax colonial que segundo os espanhóis se instaurou após a Conquista, na verdade não foi exatamente como relatado, visto que os nativos organizaram muitas revoltas durante o domínio colonial. Além das revoltas, haviam outras formas de resistência como atos individuais de violência, desleixo com o trabalho, roubo, etc.
Além, disso, os nativos mantiveram um certo grau de autonomia, permitida tanto por negociações legítimas quanto por negociações ilegais. Em relação a questão espiritual, os estudiosos vem entendendo que a religião indígena não se extinguiu totalmente, tendo sido criado uma espécie de catolicismo indígena, com diversas variações regionais. Além de traços da antiga religião, outros das aspectos da cultura indígena foram persistindo, visto que a principal preocupação dos hispânicos era a cristianização, que conferiria racionalização e civilização ao império, e não tanto os outros aspectos como o vestuário e o idioma.
O autor cita novamente James Lockhart que diz que os dois povos ignoraram a interpratação do outro a respeito da conquista e da colonização, os espanhóis considerando a conquista já completa e que os nativos estavam sobre o domínio do rei, e os indígenas acreditando que estavam sujeitos aos próprios senhores.
Em As palavras perdidas de La Malinche – O mito da (falha)comunicação Matthew Resttal questiona o mito da falha de comunicação, ou a teoria de que a falta de comunicação seria o grande motivo para a derrota indígena. O autor não nega o fato de a diferença de idioma e costumes causaram algumas dificuldades na comunicação ena compreensão tanto da parte dos espanhóis com os nativos quanto dos nativos para os espanhóis, mas afirma que os dois lados se entendiam quando tinham interesse em o fazer.
Existem diversos relatos a respeito do encontro de Hernán Cortés com e imperador asteca Montezuma. Bernal Díaz faz uma única referência ao fato de que Cortés falava por meio de Dona Marina, enquanto Gómara comenta que o discurso de Montezuma foi transmitido ao conquistador espanhol por meio Marina e Aguilar. Já Cortés, em seu relato não menciona nenhuma vez a presença dos intérpretes, narrando seu encontro com o imperador asteca como se ambos falassem a mesma língua, o que engendrou o mito da comunicação.
Muitos historiadores tradicionais como Tzvetan Todorov defenderam o mito da falha/falta de comunicação, afirmando que os nativos foram derrotados pela falta de habilidade na comunicação inter-humana ou pelo seu "atraso" em relação aos espanhóis, principalmente pelo fato de os espanhóis conhecerem a escrita. Porém, segundo o autor, não há indício de que a escrita tenha tido um papel importante ou decisivo para dominação.
Restall apresenta durante o capítulo inúmeros exemplos onde tradutores/intérpretes foram utilizados para auxiliar na comunicação entre espanhóis e nativos. Dona Marina ou Malinche, eram uma nobre naua qie fora sequestrada ainda criança e que crescera como escrava entre os maias de chontal. Dada de presente a Cortés e seus companheiros e sabendo um idiota que Gerónimo de Aguilar (espanhol falante do maia que havia passado anos entre os mesmos após um naufrágio) não compreendia, o náuatle, Malinche foi de grande utilidade para Cortés.
Os espanhóis tendiam a menosprezar ou diminuir a participação dos intérpretes e isso está relacionado com os capítulos três e quatro, onde vimos que os a grande maioria dos espanhóis exaltava seus feitos individuais, mas ao mesmo tempo que menosprezavam nos escritos, admiravam-se quando americanos nativos se mostravam aptos a aprender uma língua europeia. E essa admiração foi uma oportunidade para que muitos intérpretes conquistassem um status na sociedade colonial. Malinche por exemplo, conseguiu um casamento com um espanhol de status relativamente alto, Juan de Jaramillo e ganhou como dote de Cortés, uma encomienda para o casal. No Peru, Pizarro utilizou dois garotos indígenas como intérpretes e eles conseguiram relativa fama entre espanhóis e nativos. Um deles, conseguiu mais tarde o título de Don Martín Pizarro, além de conseguir uma parte do espólio de Cajamarca e duas encomiendas.
Restall consegue mostrar que apesar de um primeiro momento de dificuldade na compreensão, mais tarde, com a ajuda de intérpretes, a comunicação foi sim possibilitada.
Em Os índios estão se acabando - O mito da desolação nativa, Restall combate a muito disseminada ideia de que os nativos ficaram paralisados ou inativos enquanto sua cultura era destruída pelos conquistadores espanhóis. Inicialmente, o autor apresenta três estereótipos referentes aos indígenas. O primeiro estereótipo era relacionado ao fato de que os espanhóis acreditavam que os índios eram destituídos de cultura, visto que não consideravam suas crenças como uma religião, não acreditavam que sua linguagem não alcançava o nível da verdadeira fala e nem reconheciam sua forma de governo. E foi esse estereótipo que levou os espanhóis a crer que os índios poderiam ser "civilizados".
O segundo estereótipo estava a relacionado a visão de inocência, bondade e gentileza dos indígenas, estereótipo sustentado por Las Casas e o Frei Antonio de Montesinos. A combinação da visão dos nativos como "tábulas rasas" e naturalmente inocentes acabou inspirando várias tentativas de contrução de comunidades cristãs. Os nativos eram vistos como maleáveis, mas como argumenta o autor, eles não tinham nenhuma maleabilidade natural maior que a dos espanhóis. A tentativa de colonizá-los funcionava da maneira que esperavam quando coincidiam com os costumes e práticas nativos. Do contrário, havia resistência, o que contribui para o desenvolvimento do terceiro estereótipo, o do índio perverso, brutal, desobediente e incapaze de aprender, o que por vezes justificou tratamentos rudes dispensados aos mesmos. O autor ainda enfatiza que a comparação dos índios com as feras selvagens feita por Sepúlveda ligava aos nativos uma série de características consideradas animalescas.
Em paralelo ao mito principal exposto no capítulo, Restall discorre sobre o que chama de mito da apoteose, ou seja, o mito de que os nativos americanos acreditavam que os espanhóis eram deuses, mesmo com a ausência de evidências que afirmassem isso claramente. O argumento de que os nativos confundiram os espanhóis com deuses foi muito disseminado por franciscanos que queriam promover a ideia de que a Conquista era uma obra da Providência divina e com o passar do tempo a historiografia foi adotando e difundindo não só o mito da apoteose, mas também o mito de que as práticas indígenas haviam sido aniquiladas.
O historiador diz que embora a população indígena tenha sim diminuído em razão das epidemias de doenças trazidas pelos europeus, isso não quer dizer que sua cultura tenha sido destruída. Dizer que houve uma derrota nativa era negar que muitos deles foram aliados dos espanhóis em busca de seus interesses próprios. Na verdade, o autor até mesmo diz que as culturas nativas desenvolveram-se mais rapidamente no período colonial, adaptando-se ao surgimento de novas tecnologias e a convivência com a cultura hispânica.
No último capítulo de seu livro, Matthew Restall discorre sobre o mito da superioridade espanhola em relação aos indígenas. Primeiramente o autor expõe cinco razões míticas ligadas a ideia da superioridade espanhola que foram utilizadas por muitos anos para explicar a conquista. A primeira razão usada era que os conquistadores eram agentes da providência divina, agindo por uma causa justa de levar o cristianismo e a civilização aos bárbaros e com o auxílio da boa vontade de Deus. A segunda razão mítica impunha aos nativos a culpa de sua própria derrota, combinando a falsa ideia de que os nativos acreditavam que os espanhóis eram deuses em conjunto com a ideia de que tanto o soberano inca como o asteca foram os culpados pela queda de seus impérios.
A terceira explicação mítica argumentava que os nativos não estavam preparados para expulsar os invasores espanhóis. A quarta razão era a ênfase da ideia da superioridade espanhola por serem letrados e os nativos não. E a quinta explicação é que somente a tecnologia bélica hispânica poderia esclarecer a conquista. De uma forma ou de outra todas as razões colocavam os nativos em posição de inferioridade em relação aos espanhóis.
Em contrapartida, o autor também apresenta cinco fatores que em sua opinião podem esclarecer melhor o resultado da Conquista. O primeiro fator foi a propagação de enfermidades trazidas pelos espanhóis a um continente que passara anos isolado e que no primeiro século e meio após a primeira viagem de Colombo, dizimou mais de 90% da população indígena na América, inclusive matando o sucessor de Montezuma, Cuitlahuac e o imperador inca Huayna Capac.
O segundo motivo que pode explicar a conquista foi a desunião indígena, que incentivada pelos espanhóis, fez com que o número de nativos aliados aos conquistadores fosse superior ao número dos próprios hispânicos somados aos africanos. O terceiro fator é a tecnologia bélica, mas não da forma esperada: a maioria dos armamentos espanhóis eram ineficazes para os conflitos na América, então, somente as espadas de aço representaram uma grande vantagem em relação aos nativos. A quarta razão foi a cultura bélica: enquanto os espanhóis matavam indiscriminadamente lutando apenas por suas vidas, os incas tinham o costume de capturarem seus inimigos para só depois realizar a execução em um ritual, além de precisarem defender suas famílias e lares. O quinto ponto é o contexto histórico da expansão ultramarina, que relegava a Conquista espanhola apenas um episódio da globalização que estava acontecendo naquele período.
O autor encerra o capítulo afirmando que a Conquista espanhola foi um processo demasiadamente complexo para ser entendido apenas como fruto da superioridade espanhola.
A obra de Matthew Restall é interessante por reunir em uma única obra diversos mitos - que o próprio mesmo diz na introdução não se trata de folclore ou narrativa popular, mas sim uma ficção tida como verdadeira - e desconstruí-los de maneira que possa ser entendido tanto por especialistas na área como por leigos, já que todas as explicações são feitas de maneira didática, deixando as informações mais específicas nas notas ao final do livro.
O autor cumpre com o objetivo proposto e utiliza de argumentos sólidos baseados em diversas fontes historiográficas para comprovar suas teses, oferecendo ao leitor um novo olhar a respeito da Conquista, muitas vezes retratada em filmes, livros e até mesmo por outros historiadores, de maneira simplista ou sem a realização de críticas as fontes deixadas pelos espanhóis.


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